{"id":87896,"date":"2024-10-03T15:36:20","date_gmt":"2024-10-03T18:36:20","guid":{"rendered":"https:\/\/cnr.org.br\/site\/?p=87896"},"modified":"2024-10-03T15:42:20","modified_gmt":"2024-10-03T18:42:20","slug":"artigo-3-equivocos-comuns-sobre-a-funcao-notarial-semelhancas-e-diferencas-entre-a-fe-publica-notarial-e-registral-parte-1-por-alexandre-goncalves-kassama-e-hercules-alexandre-da-costa-benicio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cnr.org.br\/site\/artigo-3-equivocos-comuns-sobre-a-funcao-notarial-semelhancas-e-diferencas-entre-a-fe-publica-notarial-e-registral-parte-1-por-alexandre-goncalves-kassama-e-hercules-alexandre-da-costa-benicio\/","title":{"rendered":"Artigo: 3 equ\u00edvocos comuns sobre a fun\u00e7\u00e3o notarial: Semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as entre a f\u00e9 p\u00fablica notarial e registral &#8211; Parte 1 &#8211; Por Alexandre Gon\u00e7alves Kassama e Hercules Alexandre da Costa Ben\u00edcio"},"content":{"rendered":"\n<p>&#8220;Siendo un oficio el de escribano, sin el cual andar\u00eda la verdad por el mundo a sombra de tejados, corrida y maltratada; y as\u00ed dice el eclesi\u00e1stico: in manu Dei prosperitas hominis, et super faciem scribae imponet honorem suum&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Miguel de Cervantes<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma confus\u00e3o recorrente, em especial para quem n\u00e3o tem familiaridade com temas ligados aos servi\u00e7os extrajudiciais, entre a f\u00e9 p\u00fablica notarial e a registral.<\/p>\n\n\n\n<p>Em decorr\u00eancia da filia\u00e7\u00e3o comum dos &#8220;\u00f3rg\u00e3os da f\u00e9 p\u00fablica&#8221;&nbsp;1ao mesmo dispositivo constitucional2, bem como da estrutura\u00e7\u00e3o rudimentar dada por uma mesma norma organizadora3, as duas fun\u00e7\u00f5es aparecem muitas vezes amalgamadas no cognome comum de &#8220;cart\u00f3rios&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Contribui para tal situa\u00e7\u00e3o, o fato de o art. 52 da lei 8.935\/94, ao organizar as compet\u00eancias registrais e notariais, ter garantido a algumas especialidades registrais a continuidade de exerc\u00edcio, em alguns estados da federa\u00e7\u00e3o, de certas fun\u00e7\u00f5es notariais, donde ser poss\u00edvel, por exemplo, no Estado de S\u00e3o Paulo, praticar o ato de reconhecimento de firmas &#8211; tipicamente notarial &#8211; junto aos registradores civis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Aos olhos do cidad\u00e3o incauto, qualquer cart\u00f3rio, seja aquele onde se casa e se registram filhos, seja aquele onde se assinam escrituras e se fazem testamentos, teria as mesmas atribui\u00e7\u00f5es. O fato de se poder reconhecer firmas em ambos assim o comprovaria. E n\u00e3o h\u00e1 que se negar que o reconhecimento de firma \u00e9, por meton\u00edmia, a representa\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o supostamente prestado por todos os cart\u00f3rios e especialidades frente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em geral, como se o fim \u00faltimo de todos os cart\u00f3rios fosse t\u00e3o somente o reconhecimento de firmas &#8211; paradoxalmente, ato que vem se tornando cada vez mais subsidi\u00e1rio no dia a dia notarial, a despeito de iniciativas de mercado e de especialidades registrais que procuram desenvolver seus pr\u00f3prios produtos concorrentes com as mesmas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse tipo de confus\u00e3o leiga \u00e9, todavia, eventual e surpreendentemente, reproduzida tamb\u00e9m no pr\u00f3prio mundo jur\u00eddico especializado, por seus operadores e reguladores, os quais deveriam ser, ao contr\u00e1rio, os primeiros a velar pela coer\u00eancia do sistema extrajudicial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 salutar, assim, de quando em quando, descer aos princ\u00edpios e estruturas formadores das diferentes institui\u00e7\u00f5es para afastar ideias que exsurgem &#8220;fora do lugar&#8221; e que acabam por gerar mais confus\u00e3o e perplexidade, em detrimento das pr\u00f3prias fun\u00e7\u00f5es que, bem diferenciadas, prestam um &#8220;output&#8221; mais eficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de herdeiras de um arcabou\u00e7o normativo comum no pa\u00eds, a atividade registral e a notarial em muito se diferem, muito antes da pr\u00f3pria exist\u00eancia de sua ordena\u00e7\u00e3o em solo brasileiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 exatamente essa diferen\u00e7a secular, tribut\u00e1ria de um desenvolvimento hist\u00f3rico longevo, que conforma cada institui\u00e7\u00e3o, e que, nas palavras de Reinhard Zimmermann, citando Savigny, faz com que n\u00e3o haja algo como uma &#8220;autonomous human existence entirely isolated from the past&#8221;, pelo que &#8220;we cannot freely fashion our own existence, including our laws&#8221;4.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a hist\u00f3ria da fun\u00e7\u00e3o notarial \u00e9, em grande medida, a hist\u00f3ria da diferencia\u00e7\u00e3o entre as provas testemunhal e documental. O g\u00e9rmen da f\u00e9 p\u00fablica notarial se encontra, nos prim\u00f3rdios, no processo probat\u00f3rio judicial, tendo sua efic\u00e1cia intrinsecamente vinculada ao desenvolvimento da prova documental que, pouco a pouco, veio a substituir as declara\u00e7\u00f5es testemunhais de seus autores.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode se tra\u00e7ar os albores de tal evolu\u00e7\u00e3o na constitui\u00e7\u00e3o LXXVI de Justiniano5, diferenciando os documentos particulares dos documentos produzidos ante o tabellio romano, sendo este \u00faltimo alcunhado de &#8220;abuelito&#8221; do not\u00e1rio moderno6.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em referida constitui\u00e7\u00e3o se estatui que o documento privado deveria ser firmado por testemunhas, em n\u00famero m\u00ednimo de 3, e que, em caso de contesta\u00e7\u00e3o, deveriam ser tais testemunhas chamadas a depor em ju\u00edzo, demonstrando, assim, que a f\u00e9 do documento privado n\u00e3o seria maior do que aquela que merecessem as pessoas &#8211; partes e testemunhas &#8211; que o firmassem. Em outras palavras, o limite da for\u00e7a probat\u00f3ria do documento privado se dava nos mesmos exatos limites da capacidade da prova testemunhal que o defendesse.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, embora o documento notarial tamb\u00e9m devesse ser firmado por testemunhas, j\u00e1 apontava o ato do imperador que, morto o not\u00e1rio que confeccionou a escritura, e n\u00e3o tendo sido assinada por testemunhas, ainda assim deveria receber alguma f\u00e9. \u00c9, por assim dizer, a ancestral da f\u00e9 p\u00fablica notarial.<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco a pouco, a confian\u00e7a do aparato estatal judicial sai da pessoa respons\u00e1vel pela realiza\u00e7\u00e3o do documento e se transfere \u00e0 fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica de produ\u00e7\u00e3o de documentos, e, nesse momento, em espec\u00edfico, com a objetiva\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o frente \u00e0 pessoa, tal confian\u00e7a recai sobre o documento p\u00fablico produzido no exerc\u00edcio da referida fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto not\u00e1rios quanto, posteriormente, registradores t\u00eam uma qualidade em comum consistente em produzir documentos com o selo da f\u00e9 p\u00fablica, o que significa que os documentos atestados no exerc\u00edcio de tais fun\u00e7\u00f5es fazem prova por si bastante &#8211; &#8220;prova plena&#8221;, dir\u00e1 o art. 215 do CC em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s escrituras p\u00fablicas -, n\u00e3o necessitando de outros meios de prova para atestar aquilo que a pr\u00f3pria lei determina que seja considerado conforme o estado em que atestado por tais funcion\u00e1rios no exerc\u00edcio de suas fun\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, n\u00e3o haveria qualquer sentido em se organizar todo um aparato estatal com a fun\u00e7\u00e3o especial de se fornecerem informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis &#8211; &#8220;f\u00e9 p\u00fablica&#8221; -, se a autoridade judicial pudesse a qualquer momento afastar essa informa\u00e7\u00e3o com base em uma livre valora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tomasse previamente para si a espec\u00edfica quest\u00e3o de se negar, no caso concreto, a presun\u00e7\u00e3o de legitimidade de tais documentos. Um juiz que simplesmente ignora um documento produzido com f\u00e9 p\u00fablica, sem antes destruir a f\u00e9 p\u00fablica de tal documento em decis\u00e3o adequada e especificamente fundamentada, n\u00e3o est\u00e1 decidindo contra o funcion\u00e1rio, pessoa que o produziu, mas, sim, contra a pr\u00f3pria lei que atribuiu a tal documento efic\u00e1cia especial7.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o notarial e registral permite que situa\u00e7\u00f5es de direito nem sempre imediatamente observ\u00e1veis na realidade f\u00edsica das coisas &#8211; e assim, por exemplo, a propriedade, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 posse &#8211; possam receber respostas r\u00e1pidas e confi\u00e1veis por meio do documento notarial ou registral &#8211; por ex. a matr\u00edcula do im\u00f3vel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Embora possuam a mesma fun\u00e7\u00e3o e efic\u00e1cia &#8211; fato que talvez seja o g\u00e9rmen de toda a confus\u00e3o -, a f\u00e9 p\u00fablica registral e a f\u00e9 p\u00fablica notarial possuem diversas estruturas, objetos e modos de atua\u00e7\u00e3o. E \u00e9 da adequada coordena\u00e7\u00e3o entre ambas que o sistema extrai o melhor de suas qualidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 estrutura, a f\u00e9 p\u00fablica notarial opera segundo a cl\u00e1ssica regra do visis et auditis suis sensibus. O not\u00e1rio s\u00f3 d\u00e1 f\u00e9 daquilo que v\u00ea e ouve por seus pr\u00f3prios sentidos. Em compara\u00e7\u00e3o ao processo de cogni\u00e7\u00e3o judicial, que \u00e9 retrospectivo e se faz de forma mediada, tomando o juiz conhecimento do caso a partir de documentos produzidos por outras pessoas e fatos por outras testemunhas presenciados, a cogni\u00e7\u00e3o notarial \u00e9 sempre simult\u00e2nea ao acontecimento e imediata aos fatos. Trata-se do princ\u00edpio da imedia\u00e7\u00e3o8, o qual, junto da forma e do protocolo,&#8221;han hecho al notariado&#8221;9.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Rafael Nu\u00f1ez Lagos, &#8220;al Derecho Notarial incumbe m\u00e1s que ning\u00fan otro el principio de la inmediaci\u00f3n. La presencia f\u00edsica, directa, inmediata de las personas (comparecencia) y de las cosas (exhibici\u00f3n), es la base del Derecho Notarial&#8221;10.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A imedia\u00e7\u00e3o enquanto base da f\u00e9 p\u00fablica notarial remonta novamente \u00e0 fase romana, na qual a contrata\u00e7\u00e3o ritual\u00edstica solene se dava de forma oral perante o not\u00e1rio que era ent\u00e3o encarregado de reduzir a escrito, em especial a partir da fase p\u00f3s-cl\u00e1ssica, os exatos termos daquilo que viu e ouviu acontecendo a sua frente. \u00c9 nesse sentido que as escrituras eram redigidas, at\u00e9 a altera\u00e7\u00e3o promovida em Bolonha por Rolandino11, na primeira pessoa:&#8221;Eu, fulano de tal, prometo\u2026&#8221;. Em s\u00edntese, em princ\u00edpio, todas as &#8220;escrituras&#8221; eram, na verdade, atas, e as atas formam a base da f\u00e9 p\u00fablica notarial at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo ap\u00f3s toda a longa evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que trouxe o not\u00e1rio do papel de narrador privilegiado para o de verdadeiro consultor jur\u00eddico e confeccionador do neg\u00f3cio escriturado, toda escritura conserva ainda muito de ata. Assim, na cl\u00e1ssica abertura &#8220;saibam quantos a presente virem, que na data de\u2026, em\u2026, compareceram\u2026&#8221;, tem-se, nada mais, do que uma pequena ata ainda narrativa dos fatos que dar\u00e3o base ao contrato na parte ulterior e negocial das escrituras. Nesses termos, se em toda escritura existe uma parte &#8220;ata&#8221;, por \u00f3bvio, n\u00e3o pode lavrar escrituras, quem n\u00e3o \u00e9 capaz de confeccionar atas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, a f\u00e9 p\u00fablica registral se d\u00e1 especificamente sobre o pr\u00f3prio acervo do registrador. Este n\u00e3o presencia os fatos narrados nos t\u00edtulos que publica (leia-se, registra). A certid\u00e3o do ato registral \u00e9 uma certid\u00e3o sobre o que foi inscrito e se encontra nos livros registrais, n\u00e3o sobre o fato narrado no t\u00edtulo a ele apresentado para tal inscri\u00e7\u00e3o, que ele sequer presenciou. A imedia\u00e7\u00e3o \u00e9 princ\u00edpio notarial, n\u00e3o registral, e disso decorrem as diferentes formas de operacionaliza\u00e7\u00e3o das f\u00e9s p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa espec\u00edfica diferen\u00e7a \u00e9 bastante clara, por exemplo, na forma como se registram fatos &#8211; n\u00e3o neg\u00f3cios &#8211; na t\u00e1bula registral. Nenhum registrador civil precisa presenciar os nascimentos que publica em seu livro &#8220;A&#8221;, nem tampouco tem qualquer contato com os fatos que ocasionam o \u00f3bito devidamente inscrito no livro &#8220;C&#8221;. Toda a f\u00e9 p\u00fablica dos livros de registro civil indicados se baseia em t\u00edtulos que sejam adequadamente confi\u00e1veis e controlados &#8211; a declara\u00e7\u00e3o de nascido vivo e a declara\u00e7\u00e3o de \u00f3bito &#8211; mas que n\u00e3o foram produzidos pelo registrador. Em sentido diverso, nenhum not\u00e1rio poderia jamais atestar o nascimento de uma pessoa se n\u00e3o o presenciasse por seus pr\u00f3prios sentidos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dessa presen\u00e7a imediata do not\u00e1rio frente aos fatos, mas apenas mediata do registrador por meio de seus registros, que Vicente de Abreu Amadei declara que &#8220;em sede de f\u00e9 p\u00fablica &#8211; desculpem-me os Registradores &#8211; mas a primazia \u00e9 dos Not\u00e1rios, pois neles, mais do que em qualquer outro profissional, a f\u00e9 p\u00fablica \u00e9 seu princ\u00edpio, seu meio e seu fim. (\u2026) Os Tabeli\u00e3es &#8211; e s\u00f3 eles &#8211; t\u00eam voca\u00e7\u00e3o testemunhal; os Registradores, n\u00e3o.12&#8221;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 certo que tanto o registro imobili\u00e1rio, quanto o tabelionato de notas est\u00e3o destinados \u00e0 seguran\u00e7a jur\u00eddica, mas n\u00e3o do mesmo modo. Nos dizeres de Ricardo Dip, &#8220;o not\u00e1rio dirige-se predominantemente a realizar a seguran\u00e7a din\u00e2mica; o registrador, a seguran\u00e7a est\u00e1tica; o not\u00e1rio, expressando um dictum &#8211; conselheiro das partes, cujo actum busca exprimir como representa\u00e7\u00e3o de uma verdade e para a preven\u00e7\u00e3o de lit\u00edgios; de que segue sua livre elei\u00e7\u00e3o pelos contratantes, porque o not\u00e1rio \u00e9 part\u00edcipe da elabora\u00e7\u00e3o consensual do direito; diversamente, o registrador n\u00e3o exercita a fun\u00e7\u00e3o prudencial de acautelar o actum, mas apenas a de publicar o dictum, o que torna despicienda a liberdade de sua escolha pelas partes: o registrador n\u00e3o configura a determina\u00e7\u00e3o negocial.13&#8221;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9, em s\u00edntese, a base do sistema de &#8220;t\u00edtulo e modo&#8221;, no qual a inst\u00e2ncia que publica os t\u00edtulos, n\u00e3o \u00e9 aquela que os confecciona. Tampouco a inst\u00e2ncia que confecciona os t\u00edtulos tem poder para, sozinha, trazer a eles os efeitos espec\u00edficos da publicidade registral14. Da adequada intera\u00e7\u00e3o entre ambas as inst\u00e2ncias surgem externalidades positivas que v\u00e3o por sua vez \u00e0s ra\u00edzes de todo o sistema, justificando, por exemplo, que o not\u00e1rio seja de livre escolha do cidad\u00e3o, mas o registro vinculado15.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ademais, em um sistema em que os v\u00edcios eventuais do t\u00edtulo transcendem \u00e0 t\u00e1bula registral &#8211; diga-se, um registro &#8220;causal&#8221; -, n\u00e3o sendo a publicidade suficiente para sanar defeitos n\u00e3o expressos no registro, avulta a import\u00e2ncia de que o momento de forma\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo, n\u00e3o presenciado pelo agente de sua publicidade (o registrador), seja especialmente protegido de eventuais contesta\u00e7\u00f5es futuras &#8211; exatamente, o papel do not\u00e1rio. De nada adiantaria se ter um bom registro em termos de publicidade se os t\u00edtulos publicados fossem, intrinsecamente, contest\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>A separa\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es e diferentes formas de f\u00e9 p\u00fablica conformam, assim, n\u00e3o apenas a atividade individual de cada especialidade, mas todo o sistema em que imbricados os not\u00e1rios e registradores. As confus\u00f5es conceituais que eventualmente surgem na mat\u00e9ria, trazendo aos registradores fun\u00e7\u00f5es intrinsecamente notariais, ou ao contr\u00e1rio, aos not\u00e1rios fun\u00e7\u00f5es publicit\u00e1rias, s\u00e3o, mais do que uma quest\u00e3o individual de cada especialidade &#8220;atacada&#8221;, um desmonte de um sistema estruturado e finamente sintonizado que, no limite, se reverte em preju\u00edzo a toda a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Compreendidas, de forma apropriada, as similitudes e distin\u00e7\u00f5es entre as atividades notariais e de registro, bem se perceber\u00e1 a voca\u00e7\u00e3o notarial para a viabiliza\u00e7\u00e3o de prazo de reflex\u00e3o aos declarantes e para o aconselhamento tendente a reduzir assimetrias informacionais; ao passo que a voca\u00e7\u00e3o registral est\u00e1 mais ligada \u00e0 publiciza\u00e7\u00e3o de atos e \u00e0 viabiliza\u00e7\u00e3o de que terceiros tenham conhecimento sobre uma determinada situa\u00e7\u00e3o jur\u00eddica.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>1 Como na refer\u00eancia cl\u00e1ssica: ALMEIDA JR. Jo\u00e3o Mendes. Orgams da F\u00e9 P\u00fablica. In: Revista da Faculdade de Direito de S\u00e3o Paulo. Vol. V. p. 7 a 114 e vol. VI, p. 7 a 113. S\u00e3o Paulo: Esp\u00edndola, Siqueira &amp; Campos, 1897.<\/p>\n\n\n\n<p>2 Art. 236 da Constitui\u00e7\u00e3o Federal.<\/p>\n\n\n\n<p>3 Lei 8.935\/94 &#8211; &#8220;Lei dos Not\u00e1rios e Registradores&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>4 ZIMMERMANN, Reinhard. Roman Law, Contemporary Law, European Law. The Civilian Tradition Today.&nbsp; Oxford: Oxford University Press, 2001. p.109<\/p>\n\n\n\n<p>5 Entre outros temas afeitos ao dia a dia notarial, j\u00e1 apontava referida norma que &#8220;Non enim ita quis scribit iuvenis et robustus, ac senex et forte tremens&#8221;, tra\u00e7ando a dificuldade em se manter o mesmo padr\u00e3o de assinatura ao longo da vida, bem como a necessidade de maiores cuidados formais para os instrumentos firmados pelos iletrados &#8211; passando as testemunhas de 3 para 5 -, cuidado esse, contudo, que s\u00f3 seria exigido, no caso de contratos com valor superior a uma libra de ouro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>6 NU\u00d1EZ LAGOS, Rafael. Hechos y Derechos en el instrumento p\u00fablico. Madri: Instituto Nacional de Estudios Jur\u00eddicos, 1950. p.81<\/p>\n\n\n\n<p>7 V. FALC\u00c3O, Alcino Pinto. Parte Geral do C\u00f3digo Civil. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Konfino, 1959. p.269.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>8 V. ADRADOS, Antonio Rodr\u00edguez. Princ\u00edpios Notariais. Tradu\u00e7\u00e3o de Gabriela Saciloto Cramer. Diadema: JS Gr\u00e1fica, 2023. p. 87-98.<\/p>\n\n\n\n<p>9 NU\u00d1EZ LAGOS, R. El derecho notarial. Lima: Gaceta Notarial, 2013. p. 36<\/p>\n\n\n\n<p>10 Idem, ibidem.<\/p>\n\n\n\n<p>11 PASSAGGERI, Rolandino. Aurora. Com os coment\u00e1rios de Pedro de Unzola. Traduzido ao Espanhol por V\u00edctor Vicente Vela e Rafael Nu\u00f1ez Lagos segundo a vers\u00e3o publicada em 1485. Madri: Col\u00e9gio Notarial de Madri, 1950.<\/p>\n\n\n\n<p>12 AMADEI, Vicente de Abreu. A f\u00e9 p\u00fablica nas notas e nos registros. In: YOSHIDA, Consuelo Ytasuda Moromizato; FIGUEIREDO, Marcelo; AMADEI, Vicente de Abreu. Direito Notarial e Registral avan\u00e7ado. S\u00e3o Paulo: RT, 2014. p.35-53. p. 49-50&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>13 DIP, Ricardo. Querem matar as notas? In: Registros P\u00fablicos e Seguran\u00e7a Jur\u00eddica. Porto Alegre: Safe, 1998, pp. 95-96.<\/p>\n\n\n\n<p>14 O que \u00e9 matizado, contudo, no protesto de t\u00edtulos, uma ata notarial com efeito publicit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>15 V. ARRU\u00d1ADA, Benito. The economics of Notaries. In: European Journal of Law and economics. Vol 3, 1996. p. 5-37.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.migalhas.com.br\/coluna\/migalhas-notariais-e-registrais\/416290\/3-equivocos-comuns-sobre-a-funcao-notarial\">Migalhas<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Siendo un oficio el de escribano, sin el cual andar\u00eda la verdad por el mundo a sombra de tejados, corrida y maltratada; y as\u00ed dice el eclesi\u00e1stico: in manu Dei prosperitas hominis, et super faciem scribae imponet honorem suum&#8221; Miguel de Cervantes H\u00e1 uma confus\u00e3o recorrente, em especial para quem n\u00e3o tem familiaridade com temas&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":87275,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[502,55,47],"tags":[],"class_list":["post-87896","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-noticia","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cnr.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87896"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cnr.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cnr.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cnr.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cnr.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=87896"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cnr.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87896\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":87897,"href":"https:\/\/cnr.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87896\/revisions\/87897"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cnr.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/87275"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cnr.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=87896"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cnr.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=87896"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cnr.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=87896"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}