Iniciativa aposta em gestão de riscos psicossociais, inclusão e bem-estar para modernizar o ambiente dos cartórios brasileiros
O Brasil registrou, em 2024, mais de 472 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior patamar dos últimos anos. O dado expõe uma crise que já não pode ser ignorada por nenhum setor produtivo, incluindo o extrajudicial. É nesse contexto que a Confederação Nacional de Notários e Registradores (CNR) lança o programa CNR Saúde, uma iniciativa que reúne, em um único ecossistema, ferramentas, conteúdos e suporte técnico voltados à saúde mental, ao desenvolvimento humano e à adequação dos cartórios às exigências da Norma Regulamentadora nº 01 (NR-01).
O programa surge em resposta direta ao aumento dos afastamentos e à crescente pressão por ambientes laborais mais seguros, humanos e alinhados às novas regras do Ministério do Trabalho.
Diante de um cotidiano marcado por elevada responsabilidade institucional, atendimento direto ao público e demandas técnicas rigorosas, o CNR Saúde parte de um diagnóstico claro: o bem-estar dos colaboradores deixou de ser tema secundário e passou a ocupar o centro da agenda estratégica dos cartórios brasileiros. Ao organizar palestras, cursos, materiais técnicos e consultorias especializadas, a Confederação busca oferecer suporte contínuo aos titulares e gestores. A proposta vai além de ações pontuais. Trata-se de estruturar uma cultura organizacional capaz de reconhecer riscos psicossociais e atuar de forma preventiva.
Para a advogada e assessora sindical da CNR, Jackeline Barreto, idealizadora do programa, a iniciativa responde a uma necessidade que há muito se fazia presente no setor. "O cumprimento das normas legais é essencial, mas investir na saúde mental dos colaboradores proporciona vantagens que vão além da simples conformidade regulatória. Empregadores que fomentam o bem-estar psicológico de suas equipes registram redução no absenteísmo, aumento da produtividade, aprimoramento do clima organizacional e maior retenção de talentos. Ademais, um ambiente de trabalho saudável contribui para o fortalecimento da reputação corporativa perante clientes e parceiros.", afirmou.
Ao organizar palestras, cursos, materiais técnicos e consultorias especializadas, a Confederação busca oferecer suporte contínuo aos titulares e gestores. A proposta vai além de ações pontuais. Trata-se de estruturar uma cultura organizacional capaz de reconhecer riscos psicossociais e atuar de forma preventiva.
NR-01 e a urgência da adaptação
A atualização da NR-01 consolidou a obrigatoriedade de as organizações implementarem o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) — instrumento que passou a incluir, entre seus eixos, os fatores psicossociais. Para os cartórios, isso significa revisar práticas, mapear vulnerabilidades e criar mecanismos efetivos de proteção à saúde dos trabalhadores.
Especialistas apontam que o descuido com esse aspecto impacta diretamente a produtividade, o clima organizacional e até a sustentabilidade das instituições. Esse cenário se agravou após o período de pandemia, como observa a psicóloga e advogada Karoline Miranda. "Saúde mental não aparece num raio X nem numa ressonância. Não é uma fratura exposta, mas denuncia algo na nossa mente e no nosso coração. Principalmente após a pandemia, estamos percebendo o alto índice de adoecimento ligado a riscos psicossociais nas empresas", explicou.
Nesse cenário, o CNR Saúde atua como facilitador, oferecendo orientação técnica e acesso a profissionais qualificados para a implementação de programas consistentes, capazes de atender às exigências legais e, ao mesmo tempo, melhorar a qualidade de vida no trabalho.
O colapso silencioso: entendendo os riscos
A abordagem defendida pelo programa se ancora em uma premissa: saúde mental não se resolve com iniciativas isoladas. O enfrentamento dos riscos psicossociais exige diagnóstico aprofundado, acompanhamento contínuo e estratégias personalizadas.
Durante encontros promovidos no âmbito do programa, especialistas têm alertado para o que classificam como um "colapso silencioso mental", resultado do acúmulo de pressões e emoções não elaboradas ao longo do tempo. A ideia central é que o adoecimento não ocorre de forma abrupta, mas se constrói gradualmente, muitas vezes fora do radar das organizações.
Entre os principais fatores de risco estão a autocobrança excessiva, a comparação constante e a perda de sentido no trabalho. Como contraponto, ganham destaque práticas como gestão emocional, comunicação clara e presença no cotidiano profissional. A lógica é simples: ambientes saudáveis não se constroem apenas com regras, mas com relações mais equilibradas.
Segundo o psicoterapeuta Jonathan Oliveira, a fadiga emocional silenciosa é um dos principais problemas que decorrem desses comportamentos — um cansaço progressivo, que toma o profissional de forma silenciosa e que, muitas vezes, ele próprio não percebe. "Quando a mente colapsa, ela arrasta junto o corpo, a produtividade e os relacionamentos. Às vezes o profissional já não performa como antes, já não entrega os mesmos resultados — e recorre a justificativas externas: a troca de chefia, a mudança de setor, o novo trajeto. Inventamos desculpas para não ouvir o que realmente está em jogo: o nosso emocional", ressaltou.
Consultoria especializada e resultados concretos
Uma das frentes do programa envolve parcerias estratégicas, como a estabelecida com a Encontros Psicologia. A proposta é oferecer aos cartórios uma consultoria estruturada para implementação da NR-01, com foco na gestão de riscos psicossociais. O modelo adotado inclui diagnóstico técnico, elaboração de programas contínuos e monitoramento periódico.
A expectativa é gerar impactos mensuráveis, como redução de afastamentos, diminuição do turnover e melhoria do clima organizacional. Além disso, a adequação às normas contribui para mitigar riscos jurídicos e fortalecer a reputação institucional. A lógica defendida pelos especialistas é que investir em saúde mental não representa custo, mas um movimento estratégico com retorno direto sobre desempenho e sustentabilidade.
Inclusão em pauta: a parceria com a Helpvox
Outro eixo relevante do CNR Saúde é a ampliação da acessibilidade nos cartórios, a partir da parceria com a Helpvox. A iniciativa busca enfrentar um problema ainda recorrente: a dificuldade de atendimento adequado a pessoas com deficiência, especialmente auditiva.
Segundo Cleber Santos, CEO da Helpvox, o principal obstáculo ainda é a falta de informação e empatia. Embora a legislação brasileira determine a adoção de recursos de acessibilidade, muitos estabelecimentos ainda operam com soluções insuficientes, como o uso exclusivo de mensagens de texto. "Muitos cartórios entendem que mensagens de texto resolvem as demandas das pessoas com deficiência auditiva, e isso é um grande engano. No universo de 11 milhões de pessoas com deficiência auditiva no Brasil, muitas se comunicam por meio de Libras, pois não tiveram a oportunidade de ser alfabetizadas em português. É aí que entra o papel da Helpvox", afirmou.
Na prática, a tecnologia oferecida pela Helpvox permite que o cartório acione intérpretes de Libras em tempo real durante o atendimento, garantindo comunicação efetiva entre as partes. O sistema funciona por meio de uma plataforma digital simples, que conecta atendentes e profissionais especializados de forma imediata.
Além de promover inclusão, a solução contribui para a segurança jurídica, ao reduzir riscos de fraudes em atos como procurações e inventários. A iniciativa ainda prevê treinamentos e certificações para qualificar o atendimento a pessoas com deficiência.
Tendência que veio para ficar
O avanço do CNR Saúde sinaliza uma mudança mais ampla no setor extrajudicial. A preocupação com saúde mental, inclusão e conformidade normativa passa a integrar a agenda estratégica dos cartórios, alinhando o segmento às transformações do mundo do trabalho.
O presidente da CNR, Rogério Portugal Bacellar, reforça o compromisso da entidade com essa agenda. "Os Cartórios que adotarem medidas proativas e eficazes para a gestão dos riscos psicossociais não apenas garantirão conformidade legal, mas também promoverão um ambiente organizacional mais equilibrado, produtivo e sustentável. O momento exige uma abordagem estruturada, colocando a saúde mental no centro das estratégias empresariais.", destacou.
Ao apostar em soluções estruturadas e de longo prazo, a Confederação reforça o papel dos cartórios como instituições que não apenas acompanham mudanças, mas também se antecipam a elas. Em um cenário de exigências crescentes, cuidar das pessoas deixou de ser diferencial e tornou-se condição essencial para a continuidade e a relevância do serviço prestado à sociedade.
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Fonte: Assessoria de comunicação da CNR