A Confederação Nacional de Notários e Registradores (CNR) passou a reconhecer, nos últimos anos, cartórios que adotam práticas voltadas à equidade de gênero por meio do Selo Cartório Mulher. Essa iniciativa ganha força por promover a responsabilidade social dentro da agenda do setor extrajudicial.
O programa foi estruturado para incentivar ações afirmativas tanto no ambiente interno das serventias quanto no atendimento ao público, em sintonia com as diretrizes da Organização das Nações Unidas (ONU), especialmente o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 5, que trata da igualdade de gênero.
Criado em um momento de revisão das práticas institucionais e de maior atenção às políticas ESG, o selo surge como resposta a uma realidade ainda marcada por desigualdades no mercado de trabalho.
Nos cartórios brasileiros, as mulheres já ocupam 47% das funções, segundo levantamento realizado pela CNR e ANOREG/BR, mas ainda enfrentam desafios relacionados à ascensão profissional e à equiparação salarial.
A proposta da CNR tem alcance nacional e já mobilizou dezenas de serventias. Na edição mais recente, 83 cartórios foram certificados durante a VIII Conferência Nacional dos Cartórios (CONCART), realizada em Brasília.
Antes disso, cerca de 80 unidades já haviam apresentado iniciativas alinhadas ao programa, que inclui desde políticas internas de inclusão até campanhas de conscientização e apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade.
O presidente da CNR, Rogério Portugal Bacellar, avalia que o selo permite promover ainda mais a equidade de gênero dentro dos cartórios brasileiros. “A ideia do Selo Cartório Mulher é valorizar e certificar os cartórios que atuam promovendo a igualdade de gênero e a valorização da mulher”, afirmou.
Jackeline Barreto, assessora sindical da CNR e idealizadora do projeto, explicou que o Selo Cartório Mulher é uma iniciativa inédita e permite a certificação dos cartórios que priorizam a igualdade de gênero dentro de seus estabelecimentos. “A iniciativa foi extremamente bem recebida pelos ministérios do Trabalho e da Mulher e, por conta disso, estamos desenvolvendo convênios com essas instituições para estimular a iniciativa”, destaca.
A certificação permite que os cartórios utilizem o selo em seus materiais institucionais, reforçando o compromisso com práticas inclusivas. A iniciativa também se conecta a outras ações da entidade, como o Selo Cartório Sem Preconceito e o Selo Cartório com Boas Práticas e Ações de Acessibilidade, ampliando o debate sobre diversidade no setor.
Dentro desse contexto, o Selo Cartório Mulher também dialoga com iniciativas voltadas à formação de lideranças femininas, como o projeto ELLAS no Extrajudicial. A tabeliã Ionara Pacheco de Lacerda Gaioso, diretora da CNR e uma das idealizadoras do projeto ELLAS, defende que a mudança precisa partir das próprias serventias.
“O lançamento do Selo Cartório Mulher é um alerta da CNR para reforçar a importância de trazer mais diversidade para o cartório, além de olhar para essa realidade das mulheres também sob a perspectiva da disparidade salarial. E os oficiais dos serviços extrajudiciais, como delegatários públicos, precisam ser um exemplo para a sociedade e o mercado em geral.”
Para ela, o alcance dos cartórios no território nacional é um diferencial importante para impulsionar mudanças.
“É fundamental que a sociedade abrace essas causas. Nós temos a capilaridade a nosso favor. Estamos de Norte a Sul do país, conhecemos todas as realidades. Já somos instrumentos das cidades e somos profissionais que convivem com essas diferentes realidades, por isso, é fundamental apoiarmos essas iniciativas.”
Bianca Castellar, titular do 1º Registro de Imóveis de Joinville, afirma que a diversidade faz parte da rotina da equipe e orienta tanto o atendimento ao público quanto às relações internas. Segundo ela, o respeito às diferenças de idade, sexo, raça, crença, opinião e orientação sexual é um valor praticado diariamente e reconhecido por meio dos selos conquistados.
“Nós vivemos em um mundo diverso, então, para nós, é um valor esse respeito às pessoas, esse respeito às diferentes opiniões, esse respeito à diversidade”, destaca.
Para Bianca, a convivência com diferentes pontos de vista fortalece o ambiente de trabalho e ajuda a equipe a evoluir. Ela afirma que críticas internas e externas são acolhidas como oportunidade de reflexão e melhoria, com impacto também na vida pessoal dos colaboradores.
“Nós somos diferentes, e é essa nossa diferença que nos faz fortes. Não é um faz de conta, não é apenas algo teórico, é algo que a gente vive no dia a dia: o respeito às diferenças”, resume.
Apesar dos avanços, o setor ainda enfrenta desafios estruturais, como a baixa presença feminina em cargos de liderança e a necessidade de ampliar políticas de combate ao assédio e à desigualdade. A articulação com órgãos públicos, como o Ministério das Mulheres e o Ministério do Trabalho, tem sido apontada como caminho para consolidar essas iniciativas.
A tendência, segundo a CNR, é que os selos se tornem cada vez mais um parâmetro de qualidade institucional, conectando os cartórios às demandas contemporâneas da sociedade. Ao colocar a igualdade de gênero no centro da gestão, o setor extrajudicial busca não apenas melhorar o ambiente de trabalho, mas também reforçar sua posição como serviço de confiança e proximidade com a população brasileira.
Fonte: Assessoria de Comunicação da CNR